Enquanto muitos aprendem a usar IA, quem aprender a governar agentes de IA ocupará um dos papéis...
Analista OPD-IA: uma nova porta profissional já está aberta
Empresas começam a precisar de profissionais que não desenvolvem modelos de inteligência artificial, mas sabem operar ferramentas e agentes de IA, criar produtos digitais, testar resultados e transformar tecnologia em entregas úteis.
Imagem gerada com uso de inteligência artificial
Recentemente, ao conversar com um jovem empresário sobre um serviço temporário que eu poderia prestar à empresa dele, vivi uma situação curiosa. Quando expliquei que o trabalho envolvia a operação de ferramentas de inteligência artificial, ele pareceu surpreso, afinal, a IA é uma tecnologia recente e, em sua percepção, alguém mais jovem provavelmente estaria mais preparado para utilizá-la.
A surpresa aumentou quando relatei que comecei minha carreira como programador, passei por diferentes funções em tecnologia, gestão e negócios e nunca abandonei o perfil hands-on, ou em português claro, o hábito de colocar a mão na massa. Naquele momento, tive a impressão de que, no modelo mental dele, senioridade e trabalho operacional já não poderiam ocupar a mesma cadeira, muito menos a cadeira diante de um computador executando tarefas com IA.
A hesitação em me contratar provocou uma pergunta: será que operar inteligência artificial é realmente uma atividade reservada aos mais jovens? Ou profissionais experientes, que conhecem processos, identificam riscos e conseguem avaliar criticamente uma entrega, podem utilizar a IA com ainda mais qualidade?
Foi essa experiência que motivou a pesquisa apresentada neste artigo, realizada, coerentemente, com o apoio da própria inteligência artificial. Os dados e exemplos encontrados apontam para uma transformação que muitos empresários ainda não perceberam, está surgindo uma nova camada profissional, formada por pessoas que não precisam ser engenheiros de IA ou programadores, mas precisam saber aplicar ferramentas e agentes inteligentes em produtos, processos e resultados confiáveis. Esse profissional é o Analista de Operações e Produtos Digitais com IA, ou Analista OPD-IA, para encurtar o título do cargo.
O fato é que, durante muito tempo, falar em profissão relacionada à inteligência artificial significava pensar em engenheiros, cientistas de dados e programadores, porém esse cenário está mudando. A IA chegou às áreas de comunicação, marketing, educação, atendimento, administração e operações. Com ela, surgiu uma demanda que ainda passa despercebida por muitos empresários, a necessidade de profissionais capazes de transformar ferramentas de IA em trabalho concreto.
Esse novo profissional não desenvolve os modelos de IA e nem projeta grandes sistemas, também não são apenas usuários ocasionais do ChatGPT, Claude, Gemini ou de qualquer outra IA do mercado. São profissionais que recebem uma necessidade, escolhem as ferramentas, organizam o trabalho, produzem a entrega, verificam o resultado e investigam o que deu errado, quando isso acontece.
Uma profissão que chegou antes do nome
O cargo ainda aparece no mercado sob diferentes denominações: Analista de Operações Digitais, Criador de Conteúdo com IA, Designer Conversacional e Operador de IA, entre outras. Os nomes variam, mas as atividades começam a convergir. Esse profissional pode utilizar IA para produzir artigos, imagens, vídeos, locuções, apresentações, relatórios, e-books, campanhas, páginas digitais e materiais educacionais. Também pode operar chatbots, testar agentes, configurar automações, conferir entregas, investigar falhas e documentar problemas para que os sistemas sejam aperfeiçoados.
Há sinais objetivos dessa transformação, a Lightcast identificou crescimento de nove vezes, entre 2022 e 2024, nas vagas não relacionadas à TI que exigiam conhecimentos de IA generativa. O LinkedIn registrou crescimento anual próximo de 70% nas vagas que pediam algum nível de letramento em IA, inclusive em funções não técnicas. O mercado está descobrindo que não basta contratar apenas quem constrói a tecnologia ao redor da IA, também é necessário ter no quadro de colaboradores quem saiba utilizá-la profissionalmente.
Não é engenheiro, mas precisa entender de IA
O Analista OPD-IA não precisa saber treinar modelos ou projetar arquiteturas complexas, mas precisa compreender como a IA funciona na prática, quais são suas limitações e por que uma resposta aparentemente convincente pode estar errada. Entre suas atividades estão:
- transformar uma demanda em instruções claras;
- fornecer bons prompts, contexto e referências;
- escolher a ferramenta adequada;
- combinar texto, imagem, áudio e vídeo;
- operar fluxos e agentes;
- comparar versões;
- testar resultados;
- reconhecer informações inventadas;
- investigar falhas;
- documentar evidências;
- revisar e publicar a entrega;
- proteger dados e respeitar direitos autorais.
Por isso, operar IA profissionalmente é diferente de simplesmente pedir algo a um chatbot, enquanto o usuário comum busca uma resposta, o Analista OPD-IA responde por um produto ou pela execução de um processo apoiado por IA.
A experiência é uma vantagem
Embora seja uma função operacional, ela não precisa ser superficial, isto é, profissionais experientes tendem a conhecer melhor os processos, as exceções e as consequências de uma decisão, além disso, conseguem fornecer contexto mais completo, reconhecer incoerências e perceber quando a IA produziu algo plausível, mas inadequado.
A revista Exame destacou recentemente que profissionais seniores conseguem utilizar a IA para multiplicar entregas sem abrir mão do julgamento necessário para avaliar o resultado. Quanto maior o domínio sobre o trabalho, maior a capacidade de identificar onde a IA ajuda, onde precisa ser corrigida e onde não deve decidir.
Isso muda uma percepção comum no mercado, senioridade e trabalho operacional não são opostos. Na operação da IA, a experiência pode ser exatamente o que transforma velocidade em qualidade, pois, o Analista OPD-IA pode ser um profissional de marketing, suporte, qualidade, comunicação, implantação, design, administração ou mesmo tecnologia que incorporou o letramento em IA à própria experiência.
Quando um produto digital também é uma aplicação
A combinação entre IA e plataformas no-code, ferramentas que permitem criar aplicações visualmente, com pouca ou nenhuma programação, ampliou ainda mais esse campo profissional. Com soluções como Bubble, FlutterFlow, Glide, Adalo, Lovable, n8n, Make e Voiceflow, já é possível desenvolver páginas, formulários, cadastros, painéis, pequenos relatórios, automações, experiências conversacionais e aplicações internas relativamente simples.
Ferramentas mais recentes seguem reduzindo essa barreira, o Google Stitch, por exemplo, transforma descrições e referências em interfaces e código para páginas e aplicativos. O Google Opal permite criar pequenas aplicações de IA utilizando linguagem natural e o Glide transforma planilhas (Google Sheets, Excel, Airtable) em aplicativos funcionais para pequenos negócios ou protótipos em poucos minutos.
Essas soluções não substituem engenheiros de software quando existem requisitos de segurança, grande escala, alta disponibilidade, integrações complexas ou dados sensíveis, mas conseguem resolver problemas empresariais claros que antes permaneciam em planilhas ou exigiam a contratação de plataformas maiores do que a necessidade real.
Uma pesquisa global da McKinsey mostrou que 32% das organizações consultadas deixaram de comprar pelo menos um software ou funcionalidade porque conseguiram construí-lo internamente com agentes de programação. A mudança não representa o fim dos softwares por assinatura, apenas desloca a fronteira entre o que vale a pena comprar e o que já pode ser criado internamente.
Nesse cenário, o Analista OPD-IA pode compreender o problema, criar um protótipo, testar com os usuários e colocar uma solução simples em funcionamento, mas sua maturidade também precisa aparecer na capacidade de reconhecer quando a aplicação ultrapassou seus limites e deve ser entregue a especialistas.
Dos assistentes aos agentes
A função tende a ganhar importância com a expansão da IA agêntica, pois, enquanto um chatbot normalmente responde a uma solicitação, um agente pode planejar etapas, consultar informações, utilizar ferramentas, acessar sistemas e executar ações. O Google apresentou o Gemini Agent como um “agente universal para o trabalho”, capaz de utilizar o contexto empresarial, planejar atividades e entregar resultados dentro de documentos, caixas de entrada e ambientes de desenvolvimento.
A Microsoft chama de agent boss o profissional que delega trabalho e gerencia agentes. Em levantamento com 31 mil trabalhadores de 31 países, 81% dos líderes afirmaram esperar uma integração moderada ou extensa de agentes às estratégias empresariais, em outras palavras, quanto mais agentes de IA são criados, maior é a necessidade de pessoas que saibam orientar, acompanhar, corrigir e aprovar suas ações.
Uma oportunidade é também uma responsabilidade
O Analista OPD-IA não deve ser apresentado como um super profissional que resolve qualquer problema com IA. Sua função é combinar ferramentas, conhecimento do negócio e capacidade de julgamento para acelerar entregas e resolver problemas proporcionais à complexidade. Também precisa reconhecer riscos relacionados à privacidade, segurança, autoria, uso de imagem e voz, informações falsas, acesso indevido e decisões que exigem aprovação humana.
Essa responsabilidade é o que separa a experimentação do uso profissional, sendo assim, a nova porta já está aberta, as empresas começam a contratar pessoas para executar exatamente essas atividades, ainda que utilizem nomes diferentes para o cargo. O próximo passo é reconhecer que existe uma função própria entre quem apenas usa a IA e quem desenvolve sua infraestrutura. O que podemos concluir disso tudo é:
A inteligência artificial não cria oportunidades somente para quem sabe construí-la. Cria também uma nova camada profissional formada por quem sabe operá-la com método, experiência, qualidade e responsabilidade.
E sua empresa, como está utilizando a IA? Saiba como podemos ajuda-lo na utilização racional e segura da inteligência artificial, com governança e gestão de riscos.
Fontes consultadas
- Lightcast — The Generative AI Job Market
- LinkedIn — Labor Market Report 2026
- PwC — Global AI Jobs Barometer 2026
- Microsoft — Work Trend Index 2025
- McKinsey — The State of AI 2026
- Exame — Sêniores + IA
- Exame — CUX: experiência conversacional
- Exame — IA, longevidade e trabalho
- TI Inside — IA faz empresas reconsiderarem assinaturas de software